
Em um grande auditório que ficou rapidamente pequeno, com parte do público disputando espaço no chão ao redor do painel, o escritor Benê Barbosa protagonizou a palestra mais aguardada da Shot Fair Brasil 2026, encerrada no último sábado (18).]
Autor dos best-sellers Mentiram para mim sobre o desarmamento e Sobre Armas, Leis e Loucos, Benê escolheu um tema que, segundo ele próprio, não gostaria de abordar, mas considera necessário. Em “Mais que armas: valores e propósito“, palestra que encerrou o evento, defendeu que o movimento armamentista brasileiro perdeu de vista sua essência.
Benê afirma que todas as atividades presentes na feira — do tiro esportivo à caça, da cutelaria ao colecionismo — nasceram de um mesmo propósito.
“A gente precisa lembrar exatamente qual é a raiz da nossa grande árvore. E ela é a sobrevivência.”
Segundo ele, quando essa finalidade é esquecida, o próprio direito ao acesso às armas passa a ficar vulnerável.
Nenhuma categoria vai salvar o acesso às armas
O principal alvo das críticas de Benê foi a ideia, bastante difundida dentro do movimento armamentista, de que determinadas categorias — especialmente os CACs — seriam suficientes para preservar o direito ao acesso às armas.
Ao longo da palestra, o escritor lembrou que o tiro esportivo nasceu como treinamento militar; que a arqueria surgiu para caça e guerra antes de se transformar em modalidade olímpica; que as primeiras armas de pressão foram desenvolvidas para combate; e que até o colecionismo só existe porque as armas foram criadas, originalmente, para defesa.
“Todos que estão aqui hoje só estão aqui porque o grande propósito sempre foi a autodefesa. O propósito que liga tudo isso aqui é poder se defender.”
Para Benê, nenhuma modalidade esportiva, atividade econômica ou categoria administrativa pode substituir essa essência.
“Ninguém pode competir se estiver morto. Ninguém pode colecionar se estiver morto. Ninguém pode fabricar se estiver morto.”
Foi nesse momento que o palestrante passou a criticar diretamente o discurso de que alguma categoria específica seria responsável por “salvar” o direito às armas.
“Essa cultura não vai mudar com um setor. Não é o atirador esportivo, não é o colecionador, não é o cara do airsoft, não é o cara da airgun, não é o cara da recarga, não é o cara das roupas. Ninguém sozinho vai conseguir fazer isso.”
Segundo Benê, é um erro acreditar que determinada atividade garante, por si só, a manutenção do acesso às armas.
“Ninguém pode se arvorar de dizer: ‘eu estou salvando as armas no Brasil’. ‘A minha categoria’… ‘se não fosse a minha categoria vocês estavam todos desarmados’. Isso não é verdade. E, na realidade, isso não garante porra nenhuma”, afirma.

“Enquanto os políticos continuarem tratando o CAC como se ele fosse uma categoria especial que merece o apoio, merece o porte, merece usar 9 milímetros, merece usar fuzil… então tá, e o padeiro que não tirou CR não merece? E a pessoa que não tem dinheiro não merece? E o cara que não quer ser CAC?”, indaga.
Para sustentar a afirmação, Benê lembra que diversos países mantiveram o tiro esportivo, a caça e o colecionismo enquanto restringiam cada vez mais o uso defensivo das armas.
“Nós tivemos vários países do mundo que trilharam esse caminho. Muitos. E todos se ferraram.”
China, Japão e Canadá: por que o esporte não impede o desarmamento
Na sequência da palestra, Benê Barbosa passou a citar países onde o tiro esportivo, a caça e outras atividades ligadas às armas continuam existindo, mas sem que isso represente o reconhecimento do direito de defesa do cidadão.
Para ele, esses exemplos demonstram que defender apenas modalidades esportivas ou categorias específicas não impede o avanço de políticas restritivas.
O primeiro exemplo foi o Japão. Segundo o escritor, o país manteve modalidades esportivas ligadas ao tiro, mas praticamente eliminou o acesso civil às armas de fogo para defesa.
Como consequência, explicou, os japoneses desenvolveram alternativas para manter o esporte vivo. “O Japão inventou o airsoft. Por quê? Porque lá não pode ter arma.”
Barbosa lembrou que o país é o único do mundo em que a IPSC (Confederação Internacional de Tiro Prático) reconhece oficialmente competições disputadas com armas de airsoft, justamente em razão das restrições impostas às armas de fogo.
Para ele, o caso japonês demonstra que preservar o esporte não significa preservar o direito às armas. “Você pode ter tiro esportivo no Japão. Mas isso não garante o acesso às armas.”
Em seguida, Benê cita a China, outro exemplo de país que mantém atletas de alto rendimento sem reconhecer o direito da população ao acesso às armas.
“A China é uma das maiores campeãs olímpicas do tiro esportivo”. Apesar disso, afirmou, o cidadão comum continua sem acesso às armas de fogo. “Tem tiro esportivo? Tem. Tem acesso à arma? Não. Então não garante.”
Segundo Benê, até mesmo os atletas convivem com um rígido sistema de controle estatal.
“Lá todo mundo tem que contar cartucho. Se você recebeu cinquenta cartuchos, tem que devolver cinquenta cápsulas. É tudo controlado.”
Para o autor, esses casos demonstram que o Estado pode incentivar o esporte e, ao mesmo tempo, negar completamente o direito de autodefesa.
“O esporte continua existindo. O que desaparece é o direito de o cidadão possuir uma arma para defender a própria vida.”
Mais adiante, Benê Barbosa citou o Canadá como um dos principais exemplos de que tradição armamentista não é suficiente para preservar o direito ao acesso às armas.
Segundo ele, o país ocupa uma posição de destaque entre as nações mais armadas do mundo justamente por causa de sua forte cultura de caça.
“O Canadá é o sexto país mais armado do mundo. Pouca gente sabe disso. Tradição do quê? Caça.”
Na avaliação do escritor, porém, essa tradição não impediu que o governo endurecesse progressivamente as restrições ao armamento civil.
Como exemplo, Barbosa lembrou a decisão do ex-primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, de proibir a aquisição de um certo tipo de armamento. “O que o Trudeau fez? Acabou com as semiautomáticas. Hoje você não compra mais semiautomáticas no Canadá.”
Segundo ele, a justificativa apresentada foi justamente a vinculação das armas à atividade de caça. “Por quê? Porque você não precisa de um semiauto para caçar. Você precisa de um rifle de ferrolho.”
Para Benê, é justamente nesse momento que o cidadão perde capacidade de reação diante do Estado. “E o rifle de ferrolho é páreo contra um agente do Estado que tem um fuzil? Não. Simples assim.”
O palestrante afirmou que esse processo se repetiu em diversos países europeus.
“Todos esses países, com grande tradição de caça — Finlândia, Suécia, Dinamarca, Holanda — continuam tendo caça. Mas ninguém tem um fuzil semiautomático. Porque o Estado não permite.”
Na visão de Barbosa, o esporte e a caça permanecem existindo, mas deixam de representar um direito à autodefesa.
“Mas a caça está lá. O tiro esportivo está lá. E é isso que sempre acontece.”
Suíça, um contraponto
Como contraponto, ele citou a Suíça, onde, segundo sua avaliação, a cultura armamentista permanece ligada à defesa nacional e à preparação do cidadão.
“A Suíça nunca perdeu isso de vista. Embora tenha tradição muito forte no tiro esportivo e na caça, qual é o principal ponto dela? A defesa do país. Eu armo a minha população com a ideia de sobrevivência. É por isso que não há essas restrições lá.”
Para Barbosa, essa é a diferença fundamental entre preservar uma modalidade esportiva e preservar o direito às armas.
“Você perde a essência, o objeto não tem mais sentido.”Continua tendo federação, continua tendo clube… mas perde o direito.”
Schützenfest: como um burocrata pode mudar tudo
Como exemplo de como uma decisão administrativa pode alterar toda uma tradição, Benê relembrou a história da Schützenfest de Blumenau, considerada a segunda maior festa de tiro do mundo.
Segundo ele, durante cerca de três décadas, a festa reuniu milhares de disparos com carabinas calibre .22 LR, sem registrar um único incidente.
“Chegou-se a 70 mil disparos numa edição. Era tiro e cerveja. Nunca houve, em 30 anos de Schützenfest, um só incidente. Zero. Nunca houve alguém ferido, nunca houve uma briga.”
De acordo com o palestrante, a situação mudou quando um tenente recém-formado decidiu que armas de fogo não poderiam mais coexistir com bebidas alcoólicas.
“Aí um dia chega um tenente, recém-saído da academia militar, com todo o seu conhecimento positivista, e diz: ‘não pode‘. Se tem bebida, não pode ter arma. Assim, do nada.”
A partir daquela decisão, a Schützenfest deixou de utilizar armas de fogo e passou a adotar exclusivamente armas de pressão.
Para Benê, o caso demonstra como basta uma decisão burocrática para descaracterizar uma tradição secular.
“Hoje a Schützenfest, a segunda maior festa de tiro do mundo, só usa ar comprimido. Só arma de pressão. Porque um burocrata disse que não podia. Perda total da essência.”
O britânico que usou armas do esporte para defesa e foi condenado
Outro exemplo citado pelo escritor foi o do agricultor inglês Tony Martin.
Após sucessivas invasões à sua propriedade, Martin decidiu esperar os criminosos armado com uma espingarda. Durante uma das invasões, atirou contra os assaltantes, matou um deles e feriu outro.
Segundo Benê, o aspecto central do caso não foi apenas a reação ao assalto, mas o entendimento da Justiça britânica de que aquela arma possuía autorização para caça — e não para defesa da residência.
“Ele não tinha autorização para ter aquela arma. Era uma arma de caça. Se ele não tinha autorização de caça, ele não podia ter aquela arma para caçar. Se ele não era caçador, o único objetivo daquela arma era matar gente.”
O agricultor acabou condenado inicialmente à prisão perpétua. Posteriormente, a pena foi reduzida, mas, para Benê, o episódio simboliza o risco de desvincular o direito às armas da autodefesa.
“Se você está com uma arma de caça, uma arma de tiro ou uma arma de coleção e usa para defender sua família, você passa a ser acusado de não cumprir a finalidade daquela arma. Gente, o caminho é esse.”
Segundo o escritor, esse mesmo raciocínio começa a aparecer também no Brasil.
“Hoje isso está mudando. Tem delegado que pensa assim, tem promotor que pensa assim, vai chegar nos juízes. E aí você vai ser preso não porque matou o ladrão dentro da sua casa, mas porque não cumpriu a finalidade da sua arma.”
“A política sozinha não muda cultura”
Ao entrar no tema político, Benê fez questão de afirmar que mudanças legislativas são importantes, mas insuficientes para garantir a preservação do acesso às armas.
Segundo ele, leis acompanham transformações culturais — não o contrário.
“A política, por si, não é capaz de trazer mudanças culturais. A política tem que ser o reflexo dessa mudança.”

Benê afirma que as políticas do governo Bolsonaro foram boas para o setor -mas efêmeras. “Não adianta tudo mudar de novo em 4 anos”, diz.
Na avaliação do escritor, concentrar todas as expectativas em eleições é um erro recorrente do movimento armamentista.
“Todo mundo pergunta quem vai ganhar a eleição. Como se isso resolvesse tudo.”
Embora tenha afirmado que eleições continuam relevantes, Barbosa sustentou que hoje o principal centro de poder do país está em outro lugar.
“A única preocupação válida sobre quem vai ser o próximo presidente tem três letrinhas: STF.”
Segundo ele, qualquer governo eleito encontrará limites impostos pelo Supremo Tribunal Federal.
“O próximo presidente da República terá o poder, mas não vai exercer o poder, seja quem for. Hoje quem manda é o STF. Ponto final. Isso não é uma acusação, é uma constatação.”
Na avaliação do palestrante, justamente por isso a disputa política passa também pela composição da Corte.
“A briga pelo poder é essa, não é pelo cargo da Presidência. Porque ele vai escolher quatro novos ministros do STF”, diz.
Na Corte, a aposentadoria é compulsória aos 75 anos, o que deve ocorrer com três membros (Luiz Fux, em 2028), Cármen Lúcia (2029) e Gilmar Mendes (2030). Há também a vaga de Luís Barroso, ainda em aberto após o Senado rejeitar a indicação de Jorge Messias.
Ainda assim, Barbosa voltou a insistir que nenhuma decisão institucional será suficiente se a sociedade não modificar sua percepção sobre o direito à autodefesa.
“Se amanhã mudar o governo e a cultura continuar a mesma, daqui a alguns anos vocês vão perder tudo de novo.”
O recado final
Na reta final da palestra, Benê Barbosa voltou ao ponto que norteou toda a apresentação: o direito ao acesso às armas depende menos de decretos e mais da forma como a sociedade enxerga a autodefesa.
Segundo ele, enquanto o brasileiro considerar que armas existem apenas para esporte, coleção ou caça, o acesso continuará sendo tratado como uma autorização precária, sujeita à vontade do Estado.
“Nós precisamos parar de pedir licença para existir.”
O escritor afirma que a defesa da vida precisa voltar ao centro do debate. “Quando alguém pergunta por que você quer uma arma, a resposta não deveria começar dizendo que você é CAC, caçador ou atirador. A resposta deveria ser muito mais simples: porque eu tenho direito de defender a minha vida.”
Ele conclui dizendo que não existe solução rápida para mudar esse cenário.
“Não tem solução rápida. Não tem solução milagrosa. Não tem salvador da pátria.”
Para Barbosa, a transformação começa pela mudança de mentalidade dentro do próprio movimento. “A mudança é cultural.”
Sob aplausos do público, o palestrante encerrou sua participação reafirmando que o acesso às armas deve ser entendido como consequência de um direito fundamental, e não como privilégio concedido a determinadas categorias.
“Se a sociedade entender que a autodefesa é um direito, todas as outras atividades sobrevivem. Se ela esquecer disso, nenhuma categoria vai conseguir salvar as armas no Brasil.”