
As armas históricas dos EUA podem ganhar um novo destino nas mãos de cidadãos americanos. Por meio do Civilian Marksmanship Program (CMP), exemplares dos estoques militares são transferidos para uma entidade que os inspeciona e comercializa ao público civil. Os recursos financiam atividades de segurança, formação esportiva e tiro esportivo. Entre os modelos estão as tradicionais pistolas M1911 e M1911A1. Agora, o programa também prepara a venda de fuzis M14.
O CMP tem origem governamental e uma relação prevista em lei com o aproveitamento de armamentos militares excedentes. Sua administração, porém, mudou ao longo do tempo: desde 1996, está nas mãos de uma organização privada sem fins lucrativos, criada pelo Congresso americano. A legislação estabelece expressamente que a entidade não é um departamento ou agência do governo dos Estados Unidos.
Armas históricas nos EUA: uma iniciativa com mais de um século
A história remonta a 1903, quando o Congresso e o presidente Theodore Roosevelt estabeleceram o National Board for the Promotion of Rifle Practice e as competições National Matches. A iniciativa buscava desenvolver a capacidade de tiro dos americanos e esteve sob administração do Departamento da Guerra e, posteriormente, do Departamento do Exército.
Ao longo das décadas, o foco passou a incluir a formação de civis e o desenvolvimento de jovens por meio do esporte. A reorganização de 1996 criou a estrutura que administra o CMP atualmente, com atribuições que incluem promover competições, ensinar segurança e realizar atividades de treinamento.
Além disso, as vendas de armas excedentes ajudam a financiar essa atuação. Segundo o programa, os recursos também sustentam bolsas de estudo e iniciativas voltadas aos jovens em diferentes regiões do país. Assim, a comercialização de armas históricas nos EUA se conecta à manutenção de atividades esportivas e educativas.
Pistolas 1911 já chegaram ao público civil
Um dos exemplos mais conhecidos envolve as pistolas militares M1911 e M1911A1, em calibre .45 ACP. As vendas desses armamentos pelo CMP começaram em novembro de 2018, conforme registro do Government Accountability Office (GAO), órgão de fiscalização ligado ao Congresso americano.
A legislação de defesa para o ano fiscal de 2018 determinou a transferência de pistolas excedentes do Exército ao programa. Para aquele exercício, foram previstas pelo menos 8 mil unidades, dentro de um limite de 10 mil por ano fiscal estabelecido para as transferências abrangidas pela norma.
Já em janeiro de 2025, o CMP anunciou a retomada das vendas de M1911 e M1911A1 dos estoques militares. A entidade informou que passaria a receber novos pedidos por ordem de chegada, substituindo o sistema de números aleatórios utilizado anteriormente.
Naquele mesmo ano, o programa também realizou seu primeiro evento presencial de vendas dessas pistolas, em Anniston, no Alabama. A edição de 6 de junho reuniu mais de 400 exemplares, incluindo armas de produção inicial e pares com números de série consecutivos, permitindo aos participantes examinar as peças pessoalmente.
São armas provenientes do serviço militar americano. Por isso, interessam também aos entusiastas do colecionamento. O próprio CMP distingue essa oferta de outra linha comercializada pela entidade: réplicas modernas da 1911, na configuração M1911A1, produzidas pela Tisas com a marca do programa.
M14 é a próxima novidade entre as armas históricas dos EUA
O CMP anunciou autorização especial para disponibilizar fuzis M14 excedentes. Antes da comercialização, os exemplares passarão por modificações permanentes e irreversíveis para funcionar exclusivamente em regime semiautomático, segundo o comunicado oficial.
Em atualização publicada em 30 de setembro de 2026, a entidade informou que planejava iniciar as vendas em janeiro de 2027. O anúncio inicial previa divulgar posteriormente os preços, os limites de compra e os detalhes dos canais de comercialização.

Outra frente envolve espingardas militares. Na mesma atualização do programa, o CMP informou que o Exército havia identificado 2.027 unidades para transferência: 1.589 Mossberg 500 e 438 Winchester Model 1897, modelo associado às chamadas espingardas de trincheira.
Transferências e vendas seguem exigências legais
O acesso ao acervo envolve requisitos de habilitação. Em sua análise sobre o programa, o GAO descreveu procedimentos como comprovação de cidadania e idade e consulta ao sistema nacional americano de verificação de antecedentes, o NICS. Portanto, a compra de uma pistola ou de outro exemplar do programa depende do cumprimento das exigências aplicáveis.
O relatório, publicado em 2019, registrava que o Exército já havia transferido mais de 700 mil armas excedentes ao CMP desde 1996. O número dimensiona a trajetória de uma iniciativa que conecta estoques militares, colecionismo e financiamento de atividades de tiro civil nos Estados Unidos.