SEGUNDA EMENDA EM PAUTA

EUA: NRA pede 'investigação completa' sobre enfermeiro morto pelo ICE

Alex Pretti portava uma pistola quando foi rendido e morto pelos agentes federais de imigração; maior grupo pró-armas dos EUA critica atuação de procurador geral sobre o tema

A NRA, principal entidade defensora do acesso às armas pelos civis nos EUA, criticou o posicionamento de membro do governo americano sobre o caso de Minneapolis (divulgação/NRA Foundation)
A NRA, principal entidade defensora do acesso às armas pelos civis nos EUA, criticou o posicionamento de membro do governo americano sobre o caso de Minneapolis (divulgação/NRA Foundation)

A Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês), principal organização de lobby e defesa do direito ao porte de armas nos Estados Unidos, uniu-se a outros grupos pró-armas dos EUA — muitos deles historicamente alinhados ao ex-presidente Donald Trump — para exigir uma investigação completa sobre a morte de Alex Pretti, enfermeiro de 37 anos baleado e morto pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) no último sábado, em Minneapolis, durante um protesto contra o órgão.

A agência federal, que é vinculada ao Departament of Homeland Security é responsável por fiscalizar leis migratórias e realizar detenções e deportações. O órgão tem sido alvo frequente de críticas por sua atuação armada e por episódios de uso excessivo da força.

Em vídeos amplamente divulgados nas redes sociais, Pretti — cidadão norte-americano e legalmente autorizado a portar arma de fogo — não aparece em nenhum momento empunhando uma arma. As imagens mostram um agente alcançando a região inferior das costas do enfermeiro e se afastando com o que parece ser uma pistola, antes de Pretti ser alvejado fatalmente (assista por dois ângulos, aqui e aqui).

A entrada da NRA no debate ocorreu após uma publicação nas redes sociais de Bill Essayli, nomeado por Trump para atuar temporariamente como procurador federal na Califórnia em 2025. Essayli escreveu: “Se você se aproxima da polícia portando uma arma, há uma grande probabilidade de que eles estejam legalmente justificados em atirar em você.”

A NRA reagiu duramente. Em nota, a entidade afirmou que a declaração é “perigosa e equivocada” e que “vozes públicas responsáveis deveriam aguardar o resultado de uma investigação completa, em vez de fazer generalizações e demonizar cidadãos que cumprem a lei”.

Post da NRA no X em critica ao procurador federal Bill Essayli

Outros grupos pró-armas também criticaram Essayli. A organização Gun Owners of America afirmou que agentes federais não estão “altamente propensos” a serem legalmente justificados ao atirar em cidadãos com porte legal de arma.

O grupo destacou ainda que a Segunda Emenda da Constituição dos EUA protege o direito de portar armas inclusive durante protestos, desde que de forma legal.

Caso fomenta debate entre conservadores

O gabinete do governador da Califórnia, Gavin Newsom, ironizou a situação ao comentar nas redes sociais: “Uau. Até a NRA acha que o capacho do Departamento de Justiça de Trump foi longe demais ao dizer que agentes federais estavam ‘legalmente justificados’ em matar Alex Pretti.” Em seguida, completou: “Sua posição é realmente terrível quando até a NRA o critica.”

Essayli respondeu afirmando que suas palavras foram distorcidas. Segundo ele, a declaração se referia a “agitadores que se aproximam da polícia armados e se recusam a desarmar”. Ainda assim, a publicação recebeu uma nota de checagem comunitária na plataforma X (antigo Twitter), lembrando que a Constituição dos EUA não permite que cidadãos sejam mortos apenas por portar uma arma, a menos que representem uma ameaça iminente.

Mesmo diante das críticas, Essayli reafirmou sua posição: “Se você valoriza sua vida, não se aproxime agressivamente de agentes da lei enquanto estiver armado. Se eles perceberem razoavelmente uma ameaça e você não se desarmar imediatamente, estão legalmente autorizados a usar força letal.”

A ex-porta-voz da NRA Dana Loesch, conhecida por apoiar Trump, também questionou o procurador: “Suas palavras foram ‘se você se aproxima da polícia com uma arma’. O que isso significa exatamente? A mera posse legal perto de um policial é crime ou justifica o uso da força? Linguagem importa.”

O deputado republicano Thomas Massie, do Kentucky, foi ainda mais direto: “Portar uma arma não é uma sentença de morte. É um direito constitucional dado por Deus. Se você não entende isso, não deveria estar no governo ou na aplicação da lei.”

Testemunhas afirmaram, em depoimentos formais, que Pretti não estava apontando ou exibindo uma arma quando agentes do ICE o abordaram. As versões são compatíveis com os vídeos disponíveis e contradizem a alegação do governo Trump de que os disparos teriam sido defensivos.

Além do governo da Califórnia, o Minnesota Gun Owners Caucus também pediu uma investigação criminal completa. Em nota, o grupo declarou que não há qualquer evidência de que Pretti pretendesse ferir os agentes e ressaltou que o direito de portar armas se mantém mesmo durante protestos ou manifestações pacíficas.

O grupo também rebateu declarações do diretor do FBI, Kash Patel, que afirmou que cidadãos não podem comparecer armados a protestos. “Não existe, em Minnesota, qualquer proibição contra portar uma arma carregada, com múltiplos carregadores, em manifestações, desde que o porte seja legal”, respondeu a entidade.

Questionado sobre a acusação de que Pretti não portava um documento de identificação — exigência legal para quem possui porte oculto no estado — o grupo afirmou que a infração resultaria apenas em uma multa de US$ 25, e não justificaria o uso de força letal.

O caso reacende o debate nacional sobre uso da força por agentes federais, direitos constitucionais e o papel de órgãos como o ICE. Também expõe fissuras incomuns dentro do campo pró-armas, já que a própria NRA — tradicional aliada de Trump — se posicionou contra declarações de integrantes de sua administração.